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Os riscos da educação que infantiliza

O Jornal Folha de São Paulo do último domingo, dia 22 de março, torna alarmante o que nós, professores universitários, já sabíamos e temíamos. Cresce o número de alunos cada vez menos autônomos nas universidades públicas e privadas. Não bastassem controlarem os boletins e notas dos filhos pelos sites de internet disponibilizados nos portais das faculdades, os pais agora querem reuniões frequentes com os professores e diretores, ademais de darem palpites nos programas acadêmicos e acompanharem os filhos nos processos de adaptação ao novo ambiente universitário.

São aos pais que os alunos universitários recorrem para reclamar das notas e do professor que exige frequência e pontualidade. Chegou-se ao ponto de uma mãe ir reclamar junto à coordenação de um curso de MBA (especialização) a reprovação do filho.

Durante o vestibular, muitas escolas têm preparado os pais para aceitarem a vida adulta dos filhos. Convidam eles a conhecerem as instalações e professores novos, e muitos pais assistem às aulas inaugurais com os filhos e ficam com eles para a adaptação nos primeiros quinze dias.

Que geração é essa?

Para muitos uma “geração de mimados”. Para mim, que estou no magistério superior há mais de 30 anos, “uma geração de infantilizados”. Tanto é que houve uma queda acentuada de cursos noturnos. A grande maioria, financiada pelos pais, prefere estudar durante o dia e ficar na rédea curta à noite. Mas aonde vamos deixando entrar e sair das universidades pessoas despreparadas para a vida?

A família é, sem dúvida, o alicerce para os jovens se desenvolverem harmonicamente antes de ingressarem no mundo social, produtivo e adulto. As escolas têm um papel cada vez maior, mas a responsabilidade na formação da prole ainda é dos pais. A escola é um local de instrução pedagógica e não lhe compete a responsabilidade única pela formação integral dos jovens menores de 18 anos.

É na família que se criam e educam os indivíduos para a vida. Educar e criar um filho é muito mais do que proporcionar bens e informações. É preparar para serem membros de um Estado democrático de direito, no qual a educação é um direito fundamental de primeira geração, porque no seu exercício se desenvolve a liberdade de pensamento crítico, de ser, de saber agir ou omitir de acordo com as situações concretas apresentadas pela vida.

Somente a educação formal, atribuída às escolas e universidades, não é suficiente para a estruturação do caráter de um indivíduo. A educação informal, atribuída às famílias, é formadora do caráter, da índole, e dá a base sólida para o apropriado desempenho da pessoa no convívio social. Não é o poder aquisitivo que forma o caráter do jovem, mas a adequada estrutura familiar: amor/diálogo/disciplina/limite.

Seres humanos são seres políticos, pensantes que possuem o poder de mudar o rumo do mundo, libertar da escravidão os oprimidos, livrar do medo os acossados e de instaurar a liberdade plena onde ainda há trevas.

Se nos faltarem indivíduos educados ficaremos à deriva de nós mesmos.

Educação, Senhores pais, é deixar voar, é preparar para o mundo. É confiar (mesmo com o coração apertado). Infantilizando seus filhos e minando suas iniciativas e autonomia, os pais arrancam deles os princípios indispensáveis à construção de seres humanos plenos, cidadãos que sabem qual o seu lugar e papel no mundo. Privando os jovens de suas próprias buscas, independência, desafios, dificuldades, medos e autoconfiança os pais também comprometem as gerações futuras que acabam por se perderem em agrupamentos sociais claudicantes de moral, onde a ausência de educação das maneiras, do espírito, da linguagem e do coração, associada à falta de educação efetiva do discurso e do exemplo estimulam a desconstrução do indivíduo e sua excomunhão da moral comum da comunidade.